Em 2026, tive a honra de ser convidado a integrar a comissão julgadora da ABEU – Associação Brasileira das Editoras Universitárias. A partir dessa experiência, aproveitei a oportunidade para refletir sobre alguns aspectos que considero importantes na avaliação de um projeto gráfico editorial. A seguir, apresento os critérios que utilizei nessa tarefa.

Os critérios apresentados não esgotam as possibilidades de avaliação. Dependendo do gênero e das características do livro, alguns critérios podem assumir maior ou menor importância. Portanto, além de definir os critérios, é necessário considerar a hierarquia e o peso atribuído a cada um deles.

1. Impacto visual e função da capa

A capa deve apresentar de maneira clara os elementos constitutivos do livro, estabelecendo uma hierarquia que permita compreender rapidamente autor, título e assunto. Ao mesmo tempo, deve buscar uma presença visual que vá além da simples organização das informações.

Avalia-se a integração entre tipografia, imagens, cores, formas e demais elementos gráficos, bem como a pertinência dessas escolhas em relação ao conteúdo da obra. Não se trata apenas de criar um efeito visual, mas de encontrar uma solução que tenha sentido e estabeleça uma relação consistente com o livro.

Também são considerados o uso de cor, escala, peso, espaço e estrutura da composição, incluindo soluções materiais ou construtivas que possam ampliar a experiência do objeto.

A originalidade e a capacidade de experimentar também são importantes. Mesmo em livros acadêmicos ou institucionais, nos quais a clareza e a seriedade têm grande importância, a capa pode apresentar ousadias e soluções contemporâneas sem comprometer sua função.

Uma capa pode ser extremamente simples e ainda assim produzir grande impacto quando consegue equilibrar adequadamente espaço, tipografia, imagem e composição.

2. Tipografia

A tipografia deve estabelecer uma relação equilibrada entre legibilidade, hierarquia, identidade e expressão.

Avalia-se a escolha e a combinação das fontes, considerando proporção, contraste, pesos e estilos. A tipografia deve contribuir para a identidade da publicação sem competir com o conteúdo.

A hierarquia entre títulos, subtítulos, corpo de texto, legendas, notas e demais elementos deve ser clara e consistente, facilitando a navegação e a compreensão do livro.

Também são considerados aspectos de refinamento tipográfico, como espaçamento entre letras e palavras, entrelinhas, recuos, espaçamento entre parágrafos e construção das diferentes hierarquias. Recursos como capitulares, versaletes (pequenas capitais), ligaduras e diferentes estilos de numerais podem contribuir para o refinamento quando utilizados de maneira pertinente.

Mais do que chamar atenção para si mesma, uma boa solução tipográfica deve integrar-se ao projeto e contribuir para uma leitura fluida e uma experiência de navegação consistente.

3. Diagramação

A diagramação organiza os elementos do livro e estabelece as condições para sua leitura. Por isso, envolve tanto aspectos técnicos quanto aspectos relacionados ao ritmo, à composição e à identidade visual.

Avalia-se a relação entre mancha gráfica, margens, encadernação e área de leitura, considerando especialmente a margem interna e a segurança próxima ao lombo. Esses são aspectos técnicos objetivos, mas a proporção das margens também pode contribuir para a elegância e a identidade do projeto.

A mancha de texto deve apresentar densidade e comprimento de linha adequados, favorecendo a leiturabilidade. Entrelinhas, recuos, espaçamentos e demais recursos devem contribuir para o ritmo e a fluidez da leitura.

Também é importante observar a diferenciação entre títulos, subtítulos, corpo de texto, legendas, boxes, referências e notas de rodapé, de maneira clara e inequívoca, sem criar excesso de informação visual.

Numeração de páginas, cabeçalhos e outros elementos de apoio devem integrar-se à grelha e à composição sem gerar ruído.

Por fim, considera-se a dinâmica entre as páginas: o equilíbrio entre áreas ocupadas e vazias, o uso de espaços positivos e negativos e a variação das soluções ao longo do livro. Uma boa diagramação não é apenas a repetição de uma estrutura, mas a construção de um ritmo visual coerente e instigante.

4. Texto e imagem

Uma das funções mais importantes do design editorial é articular texto e imagem. Por isso, quando o projeto apresenta uma presença significativa de imagens, esse aspecto assume papel importante na avaliação.

Avalia-se a capacidade de selecionar, recortar, dimensionar e posicionar fotografias, ilustrações, reproduções ou outros elementos visuais, estabelecendo relações intencionais com o texto e com os demais elementos da página.

Quando há mais de uma imagem, é necessário observar também as relações entre elas, evitando alinhamentos, proximidades ou combinações acidentais. As imagens podem contribuir para criar ritmo, organizar a página e direcionar o olhar do leitor.

Legendas e créditos devem apresentar diferenciação clara em relação ao corpo do texto, mantendo consistência e evitando ambiguidades.

Também são considerados aspectos relacionados ao tratamento e à reprodução das imagens, como enquadramento, resolução, contraste, cor e qualidade da reprodução.

Esse critério deve ser relativizado de acordo com o gênero do livro. Em projetos com pouca ou nenhuma presença de imagens, ele pode ter peso menor ou não ser considerado no cálculo da média.

5. Coerência e identidade do projeto

A identidade visual de um projeto editorial é construída pela consistência das soluções ao longo do livro e pela adequação da linguagem gráfica ao seu conteúdo e gênero.

Essa coerência resulta da articulação entre tipografia, composição, margens, cores, tratamento das imagens, espaços, elementos de apoio e demais recursos gráficos. As escolhas devem ser intencionais e formar um sistema reconhecível, sem impedir variações, inovações ou ousadias.

Avalia-se também a adequação da linguagem ao gênero da publicação. Um livro acadêmico pode exigir maior sobriedade, enquanto um livro de arte pode explorar mais intensamente o espaço, a imagem e a materialidade. O importante é que as escolhas façam sentido dentro da proposta do livro.

A identidade não está apenas na repetição dos elementos, mas também na capacidade de criar variações dentro de uma mesma linguagem. Aberturas de capítulos, mudanças de ritmo, páginas mais densas ou mais vazias e diferentes relações entre texto e imagem devem funcionar como parte de um sistema.

Nesse sentido, a coerência do projeto não significa uniformidade. Significa construir uma linguagem suficientemente consistente para permitir diferentes soluções sem perder a unidade, a legibilidade e a identidade do livro.